Resumo Biográfico
Aclamada na crítica portuguesa pela sua “voz quente, redonda, possante” (Miguel Soares, Comércio do Porto), Jacinta recebeu o prémio “Músico Revelação 2001” e foi referida como “A cantora de jazz portuguesa” (José Duarte, Cinco Minutos de Jazz – desde 1966, Antena 1).
“Segura, conhecedora” (Emanuel Carneiro, Jornal de Notícias), Jacinta transmite emoção e garra no timbre da sua voz, complementando-a com um swing sólido e natural. Impressionante intonação e domínio vocal, destacam-na entre cantores de jazz.
Doutorada em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, onde lhe foi atribuída nota máxima, fez um Master in Music, com média de 19 valores, na Manhattan School of Music – Nova Iorque, instituição que lhe atribuiu bolsa de estudos completa.
Logo depois do Curso Geral do conservatório, que frequentou no Conservatório de Música de Aveiro, na área de piano clássico, fez a Licenciatura em Ensino de Música, na área de composição e música de câmara, na Universidade de Aveiro.
Nos últimos 10 anos tem dedicado grande parte do seu tempo ao ensino e à investigação. É membro do grupo de investigação em Género e Performance do Centro de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Aveiro. Desempenha funções como professora efetiva de técnica vocal e treino auditivo, no Curso de Música da Universidade Federal do Piauí, Brasil, onde vive grande parte do ano. Integra a OTIUM – Associação Ibero-americana de Estudos do Ócio, que engloba professores representantes de 21 universidades. Realiza pesquisa em performance e improvisação jazz vocal, sob o prisma dos Estudos Culturais, particularmente, as culturas populares como micro-resistências contra-hegemónicas.
Como cantora profissional de jazz há já cerca de 30 anos, Jacinta tem nove discos no mercado e carreira internacional, tendo editado 3 desses discos na Blue Note Records. Foi galardoada com disco de ouro pelo seu disco Tribute to Bessie Smith. Recebeu diversos prémios e nomeações, como a de Melhor Jovem Artista de Jazz da Europa 2007, atribuído pelos editores europeus da Readers Digest e, recentemente, o prémio People’s Choice, do International Portuguese Music Awards 2022, R.I., Estados Unidos. Esgotou diversas salas de espetáculos, entre as quais, 9 noites no teatro São Luiz, Lisboa, em 2009. Figura como representante portuguesa em mais de 20 coletâneas diferentes de jazz vocal. Gravou o seu segundo álbum, Day Dream, em Nova Iorque, com o saxofonista Greg Osby e fez espetáculos em duo com os pianistas Jason Moran e Gonzalo Rubalcaba, grandes referências do jazz a nível mundial.
Juventude e adolescência
Mesmo tendo vivido em cidades como Nova Iorque, São Francisco, Estugarda, Teresina e Lisboa, manteve sempre uma ligação ativa com as suas origens, que foram marcadas pelo envolvimento em vários grupos e atividades na Gafanha da Nazaré, como os escuteiros do CNE, o movimento de Shoenstatt e a catequese.
Participou e organizou inúmeros eventos musicais nas regiões envolventes da sua terra natal, como a cocriação e organização de várias edições do Encontro de Jovens Músicos, festival mostra de artistas locais. Foi parte ativa dos primeiros anos de vida da Rádio Terra Nova, realizando, entre outras funções, o programa Contraponto, de música clássica. Integrou o grupo Esteiro Grande, de música popular portuguesa na divulgação das tradições e hábitos da Gafanha da Nazaré.
Jacinta deu os seus primeiros passos artísticos aos 4 anos de idade, com a Irmã Eugénia Gil – Movimento de Shoenstatt, Gafanha da Nazaré, com os métodos de vanguarda de Kodally e Pierre van Hauwe, na área da iniciação musical e improvisação.
Com a entrada no Conservatório de Música de Aveiro, aos 12 anos, para realização do Curso Geral de Música, seguida da sua adscrição, aos 19, no Curso em Música Ensino, da Universidade de Aveiro, Jacinta estudou a fundo obras de compositores clássicos, românticos, pós-românticos, serialistas, entre outros do séc. XX, através do piano e da composição.
Integrou vários grupos como cantora e instrumentista, foi membro de dois ensembles de música barroca, como flautista, chegando, mais tarde a liderar um grupo de rock progressivo, onde experimentou e desenvolveu o seu potencial vocal como solista pela primeira vez.
Começou a apresentar-se a solo em bares da região, acompanhando-se à guitarra e interpretando grandes êxitos da música pop britânica e da música portuguesa, que a acompanharam em toda a sua adolescência, paralelamente ao estudo formal do conservatório. Atuou posteriormente em dueto, com um projeto de música brasileira, à qual foi exposta na idade pré-adulta.
É, no entanto, no mundo do jazz que a sua energia musical encontra plena expressão.
Aos 22 anos uma excelente atuação de jazz vocal no programa Chuva de Estrelas – SIC,impulsionou a sua carreira como cantora de jazz, tendo sido solicitada para inúmeros concertos a partir de então.
Os Estados Unidos
Em 1997, com 26 anos, e após 2 anos de docência e liderança do grupo de Educação Musical no Colégio Nª Sª da Apresentação (Calvão), Jacinta mudou-se para Nova Iorque para frequentar a Manhattan School of Music – conservatório superior de música de referência a nível mundial -, onde foi premiada com bolsa de estudos para realização de mestrado na área de performance, especialização em jazz vocal. Ainda em Nova Iorque, participou em workshops por grandes nomes do jazz contemporâneo, como Elvin Jones, Maria Schneider, Ed Neumeister, Mark Murphy, Dave Holland e Annie Ross. Prosseguiu estudos de improvisação com Chris Rosenberg da Banda de Ornette Coleman, e de interpretação estilística com Peter Eldridge dos New York Voices. Jacinta começou a cantar profissionalmente em Nova Iorque, deslumbrando o público com o seu estilo enérgico.
Nas aulas individuais de canto com Peter Eldridge – Manhattan School of Music, Jacinta veio a descobrir uma voz sua que desconhecia: a cantora de canções. Aprendendo uma técnica vocal que permitiu o uso completo da sua sonoridade, a sua voz foi-se transformando aos poucos em algo agradável e suficiente para ser apresentado com uma simples melodia e letra. Até aí, o jazz que fazia, era rebuscado, difícil, de cariz “instrumental” — talvez tentando compensar por uma voz que não existia ainda, que não tinha espaço fora da cantora. Com uma técnica vocal completa e apropriada aos estilos de canto não eruditos, tornou-se mais fácil a projeção total da voz, arredondando-a e domando-a para as sonoridades “certas”.
Mais tarde, nos quatro anos em que residiu na área de São Francisco, Califórnia, Jacinta atuou profissionalmente em vários projectos musicais apresentando-se também em clubes de jazz de renome mundial como Kimball’s East e Yoshi’s.
No ano 2000, é mãe e, meses depois, a sua carreira é impulsionada para os grandes palcos em Portugal.
Tribute to Bessie Smith – O grande êxito
Em 2001, a convite do trompetista e produtor musical, Laurent Filipe, Jacinta apresenta-se ao vivo com o projeto Tributo a Bessie Smith, que tem estreia na sala dois do Centro Cultural de Belém.
Após essa atuação, para um público exigente e repleto de jornalistas, Jacinta foi considerada pela crítica portuguesa como “uma das grandes vocalistas do momento” (Rodrigo Affreixo, Blitz), tendo “uma presença em palco cheia de confiança e à vontade” (António Rúbio, Correio da Manhã), e como possuidora de uma “voz forte e soberana” (António Ferro, O Primeiro de Janeiro).
Jacinta tem um forte sentido rítmico e as suas improvisações de jazz são “dignas de uma cantora cheia de maturidade, de um nível que nunca apareceu neste país” (António Rubio, Correio da Manhã).
O sucesso deste projeto culminou com a sua edição discográfica na prestigiada Blue Note Records, em Fevereiro de 2003.
Tribute to Bessie Smith atingiu os tops de vendas nacionais e foi galardoado com disco de Ouro pelas suas vendas superiores a 25.000 exemplares, feito nunca antes conseguido na história do jazz portuguesa.
Nas canções de Bessie Smith, a grande imperatriz dos blues da América dos anos 20, Jacinta teve oportunidade de explorar e desenvolver, na prática de palco, a “cantora de canções”, nas formas simples dos Blues dos quais se apropriou e interpretou neste projeto.
De volta a Portugal
Em 2004, Jacinta firma residência em Portugal, de forma a dedicar-se a uma carreira a tempo inteiro.
Depois do grande êxito do tributo a Bessie Smith no panorama musical português, Jacinta procura novos caminhos e novas abordagens musicais, dedicando-se a vários projetos como são exemplo Jacinta Canta Monk e Jacinta Canta Brasil.
No estudo da música de Thelonious Monk, a cantora escolhe caminhos arrojados preferindo uma abordagem mais instrumental, dando ênfase não só ao swing, mas também às melodias angulares e harmonias menos óbvias.
O projecto Jacinta Canta Monk foi estreado em quinteto de jazz e mais tarde ampliado para quarteto de jazz com orquestra clássica.
Entre as várias orquestras com quem a cantora trabalhou destaca-se a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Neste projeto destacam-se ainda os maestros Graça Moura, Vasco Pierce de Azevedo, Rui Massena, e os arranjos de Paulo Perfeito.
O projeto Jacinta canta Brasil surge como necessidade da cantora em explorar sonoridades e balanços de contraposição aos do jazz americano. A cantora revisita e aprofunda um estilo já experimentado com as suas bandas nos Estados Unidos.
O repertório deste projeto é sobretudo marcado por temas de Tom Jobim e Djavan, em formato de quinteto jazz.
Com este programa específico, Jacinta apresentou-se sete noites no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, tendo sido recebida com lotação esgotada todas as noites.
Aqui, o sentido rítmico da cantora volta a destacar-se, denotando-se uma entrega e um conhecimento intrínseco do balanço e swing brasileiros, que proporciona ao ouvinte uma sensação de leveza e de grande naturalidade.
Day Dream, o álbum americano
Em Março de 2006, a Blue Note/EMI Europa lança Day Dream, o segundo trabalho discográfico de Jacinta.
Este disco surge de uma nova etapa musical onde a cantora redescobre Duke Ellington e alarga o seu espetro musical ao incluir temas de projetos bem distintos.
O americano vanguardista Greg Osby, saxofonista, arranjador e produtor do projeto, ao deparar-se com os trabalhos recentes da cantora, propõe a inclusão no disco de compositores tão diversificados como Djavan, Cole Porter, Tom Jobim, Duke Ellington, Zeca Afonso, Martin e Monk – todos eles objeto de longo estudo da cantora.
Este disco poderá ser considerado um marco no panorama internacional do jazz vocal, pela forma como os instrumentistas tocam e se expandem criativamente, em permanente diálogo entre si e com a cantora que, por sua vez, interage com a banda, abordando as melodias com a fluidez de um instrumento de sopro. Esta abordagem resulta numa música fresca, moderna, marcada com um swing forte do jazz mainstream, mas de corrente contemporânea.
Num esforço de maior aproximação deste estilo musical ao público português, Osby sugere a inclusão de adaptações de alguns dos temas para língua portuguesa – algo que foi conseguido com mestria pelo escritor e letrista, Tiago Torres da Silva.
Na tournée de Day Dream, de 20 concertos a nível nacional, Jacinta foi recebida por um público apreciador que lotou um grande número de salas do país.
A produção independente
No início de 2007 Jacinta dá início a um período suigeneris na sua carreira, destacando-se da forma habitual de trabalhar neste tipo de música em Portugal: avança com produção independente de agenciamento e management.
A música de Zeca Afonso torna-se o foco de atenção da cantora, neste ano da comemoração dos 20 anos da morte do compositor/cantor. A música do Zeca sempre fascinou Jacinta e foi alvo de estudo por várias vezes ao longo da sua carreira. Jacinta teria levado a público, obras de Zeca Afonso, integradas, ora em eventos comemorativos do compositor português, ora na abertura dos seus próprios espetáculos.
Em 2007, Jacinta redescobriu a obra do autor, na procura dos temas musicalmente mais arrojados, que permitissem um programa completo com uma abordagem jazzística. Neste processo a cantora percebeu a elevada qualidade dessas canções e surgiu a vontade de um registo discográfico.
Em Junho desse ano, os vinte editores europeus da revista Reader’s Digest escolhem Jacinta como a melhor jovem artista de jazz do continente europeu em 2007, no âmbito da iniciativa O Melhor da Europa. A revista tem uma tiragem mensal de 4 milhões de exemplares em toda a Europa.
Em Setembro, o seu terceiro álbum é editado – Convexo [a música de Zeca Afonso] – lançando Jacinta num novo percurso sonoro. A espontaneidade, frescura, e a abordagem do Cool Jazz, abordados com novas harmonias e ritmos diferenciados, transformaram a música de cariz popular portuguesa e deram-lhe um groove jazzístico sofisticado, que apelou a novas audiências.
A criatividade de execução e interpretação, num formato pouco comum de trio (sem contrabaixo), com Rui Caetano ao piano, Bruno Pedroso na bateria e a voz única de Jacinta, fazem desta sua primeira produção independente um projeto singular.
Em 2008, Jacinta realiza a maior tournée de Jazz de sempre em Portugal, passando por mais de 20 salas de auditórios e teatros portugueses com o espetáculo “Convexo”. Ainda no final de 2008 Jacinta, agora com a sua própria editora, atinge, com a terceira edição de Convexo [a música de Zeca Afonso], vendas superiores a 20 mil unidades, o que a torna novamente merecedora de um Disco de Ouro.
“Convexo ( …) revela um repertório pouco convencional do autor, longe dos clichés (…) em que Jacinta desenvolve e explora, recria e expande a música do autor (…)”.
Almanaque in Visão
Paralelamente aos seus projetos, Jacinta apresenta-se em duo com o grande pianista de jazz, Gonzalo Rubalcaba, de renome mundial.
Em Janeiro de 2009, a convite do reconhecido programador Jorge Salavisa, Jacinta realiza uma série de 9 concertos, em Lisboa, com um novo projeto denominado “Songs Of Freedom”. Com este espectáculo Jacinta volta a surpreender, ao trabalhar êxitos pop, transformando-os em jazz, apresentando-se em palco com piano e saxofones tenor e barítono. Jacinta voltou a dar o seu contributo para a história do jazz português, ao esgotar por completo esta série de concertos, no prestigiado Teatro São Luiz.
“Jacinta Surpreende no São Luiz”
António Rubio, Correio da Manhã, 2009
“Jacinta encheu aquela sala informal de público, mas não só. À moldura humana juntou-se uma presença amorosa e uma voz poderosa que desconhecia. Pese embora o extenso e pomposo currículo de Jacinta, a cantora é de uma simplicidade que surpreende. Trata o público como se se tratasse do seu círculo de amigos. Canta, conversa, ri, recorda, confessa, comunica a cada gesto (…)”.
Dulce Alves, agre-e-doce.blogspot.com, 2009
Em Julho de 2009, a cantora é convidada a inaugurar musicalmente o espaço BES Arte & Finança e a realizar uma residência artística de 11 dias. Aqui foi protagonista de várias atividades, como um workshop de jazz vocal, uma sessão de coachingmusical e a rúbrica Jacinta convida. Estiveram presentes músicos em jam sessions e ensaios abertos, encerrando a residência artística com dois concertos, novamente com uma sala esgotada.
“Muito boa iniciativa da cantora e do Marketing deste Banco Português (…)”
Tiago da Costa Miranda, andthisisreality.blogspot.com, 2009
No final de 2009, Jacinta lança o seu quarto álbum – “Songs of Freedom”, com célebres temas dos anos 60, 70 e 80, de artistas como Ray Charles, Stevie Wonder, James Brown, Nina Simone, Bob Marley, The Beatles, U2, entre outros. Neste álbum, editado pela Blue Note Records, Jacinta continua a comprovar a sua qualidade, sendo mais uma vez reconhecida através desta prestigiada etiqueta:
“A Jacinta apresenta uma voz e um estilo muito próprios em “Songs Of Freedom”. Ela conseguiu imprimir um estilo pessoal e muito original a um conjunto diversificado de clássicos do pop e do jazz”
Bruce Lundvall, Presidente do Grupo Blue Note, USA, 2009
A cantora revela todo o seu potencial enquanto intérprete, toda a dimensão da sua voz, por vezes portentosa, outras vezes delicada, e a sua competência ao nível do swing – marca indelével do jazz tradicional. Neste projeto – com origem no sucesso das atuações no São Luiz -, são escolhidos percursos ousados mais uma vez. Com o formato minimalista de piano e saxofone, foi possível dar ênfase à riqueza musical contida nestas canções, desenvolvendo e tirando partido das suas fortes estruturas harmónicas e melódicas.
Dessa forma, Jacinta demonstra, mais uma vez, um vasto e profundo conhecimento musicais, ao ousar transformar em jazz estes êxitos da música pop, tão conhecidos e acarinhados do grande público. Dá, assim, a conhecer uma vertente diferente do jazz, apresentando a novas audiências, um estilo de música por vezes associado a elites e de difícil audição.
2010 é o ano da expansão para o mercado internacional. Participações em vários festivais internacionais de jazz como o de Atenas, o de Cartago e o de Istambul, assim como o projeto em duo com o renomado pianista de vanguarda, Jason Moran, propelam a cantora para o nível dos grandes intérpretes de jazz, no legado das grandes divas do jazz e do swing.
A Alemanha e a “reciclagem”
Em 2011 Jacinta move residência para o sul da Alemanha, onde rapidamente conhece e toca com os melhores músicos de jazz da região, produzindo o seu 5º disco: Recycle Swing – Jazz Standards.
Naquele país, Jacinta depara-se com uma realidade de preocupações ambientais radicalmente diferente da que se vive em Portugal ou nos Estados Unidos, que a cantora conhecia bem. Essa mudança de atitude na reciclagem de 16 tipos de lixo diferentes no dia-a-dia, desperta a cantora para determinados aspetos ambientais que até aí lhe passavam ao lado.
Recycle Swing é produzido com preocupações ambientais, utilizando eco-fontes e sendo associado ao lançamento de Cederika, a primeira empresa de recolha e reciclagem do disco ótico em Portugal.
Outro marco deste ano é a primeira visita de Jacinta ao Brasil, onde fica por mais de um mês. A cantora leciona no Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, e faz tournée com músicos conceituados como “Baião de 5”, Cliff Korman e Juarez Moreira.
O Brasil e as mudanças de rumo
Com a crise mundial de 2008/2009, a afetar todos os artistas portugueses de estilos menos populares, começa a tornar-se difícil a venda de espetáculos, sobretudo para uma empresa de 5 funcionários que trabalhava na carreira de um único artista – a Jacinta. Logo, em 2012, Jacinta e sua manager, encerram a atividade da Jazzinta Prod. Lda e passam ao estilo habitual de management praticado em Portugal: responder a pedidos espontâneos para apresentações da artista. Dessa forma, as duas sócias, decidem dedicar-se a atividades paralelas – passados 15 anos do seu mestrado, Jacinta regressa à academia, iniciando um doutoramento em música e lecionando no Curso Profissional de Jazz do Conservatório de Música de Coimbra.
Em 2013, Jacinta tem um convite para lecionar como convidada na Universidade Federal do Piauí, Teresina, Brasil. Decide fazer concursos para professor efetivo em várias universidades daquele país e acaba por conseguir esse cargo na mesma instituição.
Durante os dez anos seguintes, dedica-se sobretudo ao ensino e à pesquisa, fazendo concertos mais esporadicamente, participando em congressos e escrevendo artigos para publicação na área da música e, posteriormente, na de Estudos Culturais – vertente para a qual transferiu a pesquisa com vista à escrita da tese de doutoramento.
Por questões de desorganização do programa doutoral em música na área da performance, na qual se havia inscrito, acaba por se incompatibilizar com o estilo único adotado naquele curso da Universidade de Aveiro – de cariz positivista e em Ciências Sociais.
Opta por fazer uma “auto etnografia crítico-analítica” e abraça as ciências humanas na vertente dos Estudos Culturais. Por questões, talvez, de poder, é-lhe negada a transferência para o curso de Estudos Culturais da mesma universidade e, como tal, ao fim de alguns anos e sob orientação e coorientação privadas, faz uma autoproposta para defesa de tese na Universidade do Minho. Por ser aluna externa àquela universidade, é sujeita a uma defesa perante 7 jurados – das áreas de música e dos Estudos Culturais, sendo aprovada com nota máxima de Muito Bom.
O álbum Musica.PT – sessions, de 2016, lançado durante a estadia da cantora em Teresina, é um disco de compilação de temas inéditos da cantora – gravados por ocasião dos seus variados projetos que não chegaram a registo fonográfico. Contém gravações de estúdio e gravações ao vivo e é constituído unicamente por música portuguesa – quer em formato de orquestra sinfónica, quer em formato de duo com piano. Resolvemos oferecer estas “Sessions” avulsas aos apreciadores da cantora.
Já o disco Semhora, o sétimo álbum da cantora, de 2018, é um trabalho arrojado, onde Jacinta partilha o palco com um único instrumentista – de baixo elétrico de seis cordas. É acompanhada por um baixista virtuoso da cena musical brasileira, Paulo Dantas, que aqui embarca em mais uma das aventuras radicais da cantora. O registo do álbum foi realizado ao vivo, na cidade de Teresina, no Piauí, por ocasião dos 25 anos da Fundação Maria Carvalho Santos, instituição que se dedica ao diagnóstico precoce do cancro da mama e a todo o tipo de apoio logístico e psicológico necessário ao tratamento da doença. O álbum é constituído por seis grandes composições do repertório brasileiro e por seis composições do repertório norte-americano, com arranjos da própria cantora:
Senhora de mim, Senhora do próprio destino, Senhora da minha música, Senhora sem hora… – “Semhora”…
Joana Pereira, manager e produtora do projeto
A partir do interregno de quase 2 anos na Universidade Federal do Piauí, causado pela pandemia do Covid19, Jacinta começa a dedicar-se um pouco mais à performance do que à parte da pesquisa e investigação científicas.
Em 2021, a edição do álbum Luna Bar, com António Bastos, integra a campanha que a cantora lançou em conjunto com a sua manager, de angariação de fundos pela União Audiovisual – movimento de apoio aos técnicos profissionais dos espetáculos, que ficaram sem qualquer fonte de rendimento desde março de 2020, aquando do primeiro confinamento da pandemia do Covid-19. Na promoção da campanha, tivemos participações de vários artistas, entre os quais: Inês Castel-Branco, Cláudia Gallego, Richard Zimler, Leonor Poeiras e Paulo de Carvalho.
Este álbum foi todo feito à distância, com os cuidados que a pandemia exigia. Com a produção musical de António Bastos e as interpretações de Jacinta, vários estilos musicais se fundem, dando origem a um som inquietante desta dupla. É concebido numa fusão de jazz com música eletrónica e com as sonoridades da música tradicional através das interjeições da guitarra portuguesa.
Dada a natureza beneficente deste projeto, tivemos a honra da participação no álbum de alguns artistas de renome nacional que, apesar de uma agenda preenchida, resolveram colaborar, cantando em dueto com a Jacinta, sendo eles: Paulo de Carvalho, Inês Castel-Branco e Mónica Ferraz. Ondjaki, escritor renomado e premiado a nível mundial, escreveu os poemas para dois dos temas que integram o disco. O comentário do diretor do Teatro São Luiz, aplica-se, também, neste caso:
A voz de Jacinta é extraordinária, é de uma imensa versatilidade, permitindo-lhe explorar géneros, temáticas, imaginários e criar novas leituras…
Jorge Salaviza
Uma das canções do disco – A Formiga no Carreiro de Zeca Afonso, comparticipação especial de Paulo de Carvalho, arrecada o prémio IPMA – International Portuguese Music Awards, nos Estados Unidos, em Abril de 2022.
Outra das canções do mesmo álbum – See the Moon, de Ondjaki e Ana Dias, entra na Playlist da Smooth FM.
Nos seus períodos não letivos, Jacinta viaja frequentemente, ora para participar como investigadora em congressos científicos a nível nacional e internacional (ver currículo vitae da cantora), ora como convidada para participações esporádicas em projetos musicais. Alguns dos exemplos sendo,
Participação no Especial 25 Anos SIC, com as caras que marcaram esta televisão, juntamente com Daniel Oliveira, Custódia Gallego, João Manzarra, Luciana Abreu, José Figueiras, Conceição Lino, Diana Chaves, entre outros.
Como a cantora do espetáculo em minitournée: HAPPY JAZZ – A Música que nos Une, com ensemble sinfónico de 90 elementos e o maestro Claus Nymark.
Como figura pública convidada a nº 2 da Lista do PS, concorrente às Autárquicas 2021, para a Câmara Municipal de Ílhavo, para o lugar de vereadora da cultura.
Como a cantora do espetáculo com a Big Band da Escola Profissional da Serra da Estrela, no Festival Seia Jazz & Blues.
Como vocal coach do pequeno fadista Tomás Marques, que acompanhou e a quem deu aulas de técnica vocal, ao longo de todas as galas até à final do programa televisivo, Uma Canção para ti, da TVI.
Como coautora e líder do espetáculo em minitournée: Seis mulheres, um espetáculo, com Michele Ribeiro, Juliana Mendonça, Maria Carvalho, Joana Gil, Beatriz Capote, Bia Stutz e Mónica Ferraz.
Assim como no projeto duo com Mónica Ferraz: Resilience, Resiliency.
Como porta voz do júri da região centro do país, no Festival da Canção 2022, da RTP.
Como porta voz do júri da área da música no concurso bianual: Jovem Criador Aveiro, 2022, esse ano com 370 candidaturas.
Como artista premiada pela Câmara Municipal de Ílhavo, no certame: Condecorações Honoríficas, com a Medalha de Mérito Cultural Prateada.
Como Autora Convidada do Festival da Canção RTP 2023, concorrendo com a obra: Sonhos de Liberdade, em coautoria com Joana Gil einterpretação dos Bolha.
Como Autora Convidada na edição fonográfica Festival da Canção 2023, pela Sony Music.
2023 é ainda marcado pelo projeto Samba a Dois, com a pianista Michele Ribeiro e com a edição do álbum com o mesmo nome – o 9º da artista, desta feita, em duetos com Joana Gil, editado pela Farol Música.
Samba a Dois tem como motor de inspiração o conceito de “Diferença e repetição”, de Deleuze. Esta teoria filosófica é utilizada por muitos artistas e performers no mundo inteiro, no propósito da criação de intensidade e do fazer nascer do “novo”, ou seja, criar a diferença através da repetição. O álbum completa, assim a trilogia dos discos nos quais a cantora apresenta alguns dos mesmos temas, mas de forma radicalmente diferente uns dos outros, nomeadamente nos discos Recycle Swing, Luna Bar e Samba a Dois.
Este é um exercício que alguns grandes monstros do jazz utilizaram, como por exemplo o modo como Chet Baker escolhia recorrentemente o mesmo repertório para tocar e gravar, impelido pela necessidade de uma interpretação intensa que o levasse sempre a novos caminhos.
A canção que dá o nome ao disco, Samba a Dois, não é mais do que o tema inédito de cariz jazzístico composto por Jacinta, ao qual posteriormente Joana Gil adicionou uma letra, sendo gravado como a canção Luna Bar, no disco do mesmo nome, em formato eletrónico e, dois anos depois, como Samba a Dois, em versão acústica, com acompanhamento de uma única guitarra, em estilo samba.
Dessa forma, nestes três discos, em Recycle Swing, em formato e arranjos para quarteto de jazz contemporâneo, em Luna Bar, com sonoridades pop eletrónicas e, em Samba a Dois, com o acompanhamento de uma única guitarra e arranjos acústicos (por Marcos Magalhães), em estilo de canções em dueto, podemos ouvir reinterpretações na voz da Jacinta, que criam ambientes sonoros drasticamente diferentes – ora apropriados a grandes audiências de festivais, ora num ambiente de grande proximidade e intimismo, onde se percebe a versatilidade da cantora.
Após o lançamento de Samba a Dois, a Farol Música convidou Jacinta para três das suas compilações: Valentine’s Day by Farol,com o tema “Samba a Dois” (Gil & Jacinta); Farol is Music 2023, com o tema “They can’t take that away from me”; e Farol Música 0803, na celebração do Dia da Mulher, com o tema “Sing the Sea” (Ondjaki & Dias), de Samba a Dois, disponíveis nas principais plataformas digitais de música em 242 territórios.
Já em 2024, Jacinta tem participado, como convidada especial, na série KIRTAN, o canto dos mantras, com Isabel Savitri, que decorre semanalmente em vários locais da região de Aveiro.
O canto dos mantras, na tradição Gurmuki e do Kundalini Yoga, já há muito apelava à cantora, como forma de meditação e em contraponto diferencial à música que faz como profissional do jazz. Neste tipo de canto, acompanhado por harmónio indiano e instrumentos de percussão, que as duas tocam em simultâneo à entoação vocal, a música é construída no momento, com bastante liberdade e muita improvisação, em modo repetitivo crescente, levando a um estado quase de transe de elevação espiritual.